The black nod, representatividade e o poder da beca
Tenho o hábito de andar olhando para o chão, fingindo que estou mexendo no celular ou procurando alguma coisa na bolsa. É uma estratégia arquitetada desde muito cedo, conhecida e utilizada por praticamente qualquer mulher que deseje evitar olhares e assédios diários. Quando me mudei para NY, o hábito foi junto, mas fui chamada para observar um "fenômeno" inédito até então. Homens negros, que não são amigos ou sequer se conhecem, acenam com a cabeça e continuam a vida normalmente.
Da minha pesquisa empírica, deu para sacar que é um gestual entre dois homens negros e acontece em lugares onde negros são minoria. Mulheres não acenam, mas dão um sorriso de canto de boca, muito raramente. Aparentemente, it's a guy thing, mas já recebi nod acompanhado de bom dia por alguns. Só depois de um tempo fui descobrir que o nod is actually a thing. O artigo de Musa esmiuça o fenômeno muito bem e explica o que qualquer negro já sabe:
"For a black person, there are some areas — bars, nightclubs, boardrooms, sometimes entire countries — where, for primarily economic reasons, you were never expected to reach."O nod, então, se torna um sinal de respeito, como se dissesse: "ei, estamos aqui, sua presença não passou em vão", "I see you". Um outro autor diz que, com o nod, "we are strangers somehow unified by our blackness in a backdrop of whiteness" (https://muse.jhu.edu/article/507651).
Apesar de ser óbvio, vale ressaltar que a comunidade negra não inventou o nod e há muitos homens que se comunicam com ele, mas o "black nod" carrega outro significado. É quase uma saudação secreta, que deixa o pessoal "de fora" confuso.
Para quem quiser se divertir, esse vídeo é fantástico, assim como os outros vídeos do canal:
Foi com o convívio no Teachers College que eu entendi ainda mais o poder da representatividade e a necessidade de reconhecer as conquistas dentro da sua comunidade. Apesar de eu sempre ter sido minoria nos ambientes onde orbitei, sentir o peso disso de novo continuava sendo desconfortável. Em dois anos e 15 matérias completadas, tive aula com apenas um professor negro e uma professora coreana-americana. Só. Quanto mais alto se alcança, mais difícil será de encontrar pessoas que se pareçam com você, é o que me ensinaram desde pequena. O nod, o sorriso no canto de boca, os parabéns emocionados, tudo isso está aí para mostrar que estamos alertas vamos celebrar as conquistas lentas.

Um dos momentos mais marcantes foi na volta de um ensaio fotográfico antes da formatura. Estava vestida com a beca, chegando no quarteirão do meu prédio, quando um dos funcionários da universidade, descansando no meio fio, me pergunta com cara confusa: "você se formou!?", ao que eu respondo: "só daqui a 2 semanas". Ainda mais confuso, continua: "mas por que está usando isso agora?". "É que eu fui tirar umas fotos, no dia vai ficar muito cheio e..." não consegui terminar a frase e a feição do moço mudou, ao que ele levanta do meio fio e grita "you know what? you wear that thing everyday, baby, congratulations! you earned it! you wear that thing! you wear that thing!!!" Ele gritou tanto e o semblante mudou de confuso para orgulhoso. Dava pra sentir aquele gosto de "nossa, ela conseguiu chegar lá".
Ainda tirando fotos com a beca, fui para o metrô e do trem saem 3 turmas de crianças da KIPP School, uma escola "alternativa", que preza pelo seus altos padrões de qualidade de ensino e preparam alunos de comunidades carentes para ingressar em universidades. Os meninos não deviam ter mais que 8 anos. Todas as professoras me olharam emocionadas e deram parabéns. Acho que deve ter sido um learning moment para os pequenos que estavam me olhando com cara de espanto. Eu estava morrendo de vergonha por estar usando a beca dentro do metrô bem na hora que o exército de crianças saltou, mas rapidamente a vergonha se transformou em satisfação por eles terem me encontrado por acaso.


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